Poemas de Lola Ridge traduzidos por Rubens Chinali Canarim

Lola Ridge (1873–1941) foi uma poeta irlandesa, radicada nos Estados Unidos. Anarquista, e influente editora de publicações de vanguarda, feministas e marxistas, advogou sempre as causas da classe trabalhadora, participando ativamente de marchas e protestos. Em seus poemas, aborda os efeitos do capitalismo, o preconceito contra os imigrantes, questões de gênero e conflitos de gerações, tendendo no final de sua carreira cada vez mais à mística e à espiritualidade, sem contudo deixar suas preocupações sociais e políticas. Escreveu cinco livros de poemas, editou as revistas Others e Broom, e de 1908 a 1937 publicou pelo menos 61 poemas em revistas como Poetry, New Republic e The Saturday Review of Literature. Recebeu a Bolsa Guggenheim em 1935, e o Shelley Memorial Award pela Poetry Society of America pelos anos de 1934 e 1935. Publicou até 1937, morrendo quatro anos mais tarde de tuberculose.

 

A CANÇÃO DO FERRO

I

Ainda não soaste
Tua música clangorosa,
Cujas cordas estão sob as montanhas…
Ainda não falaste
A sangrenta, implacável Palavra…

Mas eu ouço no Ferro cantando —
No rugido triunfante do vapor e nos pistões batendo —
Tua bárbara exortação…
E o sangue salta em minhas artérias, irrefreado,
Respondendo o Teu chamado…
Todo o meu espírito está inundado com a paixão tumultuosa da Tua Voz,
E canta exultante com o Ferro,
Pois agora eu sei que também sou dos Teus Eleitos…

Ó modelada em fogo —
Precisando de chama para a Tua suprema palavra —
Contempla-me, a cúpula
Derramada para o Teu uso!

Não cuides de meu corpo trêmulo
Que desmaia ao aperto de Tua manopla.
Quebra-o… e lança-o de lado…
Mas faz do meu espírito
Que ousa e suporta
Teu crisol…
Derrama pela minha alma
Tua canção fundida, que soterra o mundo.

… Aqui no Teu portão mais longínquo
Como uma nova Maria, eu espero…

 

II

Carregue o alto-forno, operário…
Abre as válvulas –
Aumente o fogo…
(A Noite está sobre os portões).

Como o minério, dourado de tão quente, está
Jorrando da cúpula,
Lançando as pétalas em chama
Sobre o silte e a cinza da fornalha —
Folhas sopradas, devastadoras,
Caindo pelo mundo…

Da boca da fornalha —
Da boca gigante —
A boca túrgida, furiosa —

Caem flores de fogo
Douradas com o ouro dos botões de ouro
Em um campo no pôr-do-sol,
Ou o ouro mais robusto dos dentes-de-leão,
Aquecidos nas despedidas do sol,
Ou mudando para o tom mais pálido
Dos cremosos corações das prímulas.

Carregue o conversor, operário —
Cansado da noite longa?
Mas a terra irá sugar a escuridão —
A terra que retém tanto…
E dessas flores derretidas,
Irá formar a pesada fruta…

Então abra as válvulas —
Aumente as chamas,
Nutrindo suas flores.
(O Dia está nos portões
Com um vento jovem…)

Deixa de lado sua barra, camarada,
E olhe comigo, encobrindo seus olhos…
Você não vê —
Através da névoa luzente
Erguendo-se do conversor —
Nas espirais de fogo
Fulminando e cegando,
Uma forma sombria
Branca como uma chama de sacrifício,
Como um lírio balançando?

 

III

O minério saltando nos crisóis,
O minério comunicante,
Transmitindo tênues tremores pelos chumbos…
O fogo está correndo nas raízes das montanhas…
Eu sinto a longa repercussão da terra
Como sob um poderoso estímulo…
(A aurora está radiante na luz do Ferro…)
Toda palpitante, eu espero…

 

IV

Ouvis, Ditadores — últimos Senhores do Ferro,
Fechados em suas salas de reuniões, paralisados, sem poder —
A sangrenta, implacável Palavra?
Não sussurrada nos encerramentos, um para o outro,
(Irmão com medo do medo de seu irmão…)
Mas cantada e trovejada
Nas resolutas, articuladas línguas do Ferro
Balbuciando em chama…

Cantada ao ritmo das prisões desmanteladas,
Algemas fendidas e muralhas desfiguradas…
(Corações ungidos para a morte, ainda ouvindo o chamado da vida…)
Tornozeleiras arrebentando e forcas desatadas…

Cantada ao ritmo dos arsenais queimando…
Clangor do ferro esmagando o ferro,
Tumulto de metal e o dissonante latir
De encouraçados monstros despedaçados…

Cascos de turbinas negras todos mutilados e rugindo,
Batendo sua saída através das muralhas…
Proclamação de motores, feitos raivosos com a potência,
No holocausto bufando e mergulhando…

Poderosos conversores arrancados de seus eixos,
Arremessados às fornalhas, vomitando fogo,
Misturados nas massas, brancas de tão quentes, deformadas…
Contorcendo-se em alavancas de ferro torturadas pela chama…

Rangido de serpentes de aço contorcendo-se e morrendo…
Berro de caldeirões fartos de vapor rompendo…
Choque de leviatãs uns sobre os outros…
Flancos escamados tocando, minério entrando no minério…
Vigas de aço fechando e lutando e balançando
Na valsa dos mamutes de ferro travados no seu acasalamento,
Degustando a fúria turbulenta de viver,
Loucos com a vida exuberante de um momento!
Choque martelos devastadores destruindo..
Mãos inexoráveis, desfigurando
O que as mãos tão astuciosamente moldaram…

Estruturas de ferro soldado, sutilmente temperadas,
Maravilhosamente forjadas pelos feiticeiros dos minérios,
Rasgadas em oitavas chocando-se discordantemente,
Acordes nunca finais mas progredindo adiante
Na fusão monstruosa do som sempre golpeando o som
rodopiando em loucos vórtices…

Até que o ouvido, torturado, berre para a cessação
Das desarmonias delirantes se misturando odiosamente…
O feroz obbligato os tubos de aço estão gritando…
O estrondo da rude música fundida do Ferro…

 

THE SONG OF IRON

 

I

Not yet hast Thou sounded
Thy clangorous music,
Whose strings are under the mountains…
Not yet hast Thou spoken
The blooded, implacable Word…

But I hear in the Iron singing —
In the triumphant roaring of the steam and pistons pounding —
Thy barbaric exhortation…
And the blood leaps in my arteries, unreproved,
Answering Thy call…
All my spirit is inundated with the tumultuous passion of Thy Voice,
And sings exultant with the Iron,
For now I know I too am of Thy Chosen…

Oh fashioned in fire —
Needing flame for Thy ultimate word —
Behold me, a cupola
Poured to Thy use!

Heed not my tremulous body
That faints in the grip of Thy gauntlet.
Break it… and cast it aside…
But make of my spirit
That dares and endures
Thy crucible…
Pour through my soul
Thy molten, world-whelming song.

… Here at Thy uttermost gate
Like a new Mary, I wait…

 

II

Charge the blast furnace, workman…
Open the valves –
Drive the fires high…
(Night is above the gates).

How golden-hot the ore is
From the cupola spurting,
Tossing the flaming petals
Over the silt and furnace ash —
Blown leaves, devastating,
Falling about the world…

Out of the furnace mouth —
Out of the giant mouth —
The raging, turgid, mouth —
Fall fiery blossoms
Gold with the gold of buttercups
In a field at sunset,
Or huskier gold of dandelions,
Warmed in sun-leavings,
Or changing to the paler hue
At the creamy hearts of primroses.

Charge the converter, workman —
Tired from the long night?
But the earth shall suck up darkness —
The earth that holds so much…
And out of these molten flowers,
Shall shape the heavy fruit…

Then open the valves —
Drive the fires high,
Your blossoms nurturing.
(Day is at the gates
And a young wind…)

Put by your rod, comrade,
And look with me, shading your eyes…
Do you not see —
Through the lucent haze
Out of the converter rising —
In the spirals of fire
Smiting and blinding,
A shadowy shape
White as a flame of sacrifice,
Like a lily swaying?

 

III

The ore leaping in the crucibles,
The ore communicant,
Sending faint thrills along the leads…
Fire is running along the roots of the mountains…
I feel the long recoil of earth
As under a mighty quickening…
(Dawn is aglow in the light of the Iron…)
All palpitant, I wait…

 

IV

Here ye, Dictators — late Lords of the Iron,
Shut in your council rooms, palsied, depowered —
The blooded, implacable Word?
Not whispered in cloture, one to the other,
(Brother in fear of the fear of his brother…)
But chanted and thundered
On the brazen, articulate tongues of the Iron
Babbling in flame…

Sung to the rhythm of prisons dismantled,
Manacles riven and ramparts defaced…
(Hearts death-anointed yet hearing life calling…)
Ankle chains bursting and gallows unbraced…

Sung to the rhythm of arsenals burning…
Clangor of iron smashing on iron,
Turmoil of metal and dissonant baying
Of mail-sided monsters shattered asunder…

Hulks of black turbines all mangled and roaring,
Battering egress through ramparted walls…
Mouthing of engines, made rabid with power,
Into the holocaust snorting and plunging…

Mighty converters torn from their axis,
Flung to the furnaces, vomiting fire,
Jumbled in white-heaten masses disshapen…
Writhing in flame-tortured levers of iron…

Gnashing of steel serpents twisting and dying…
Screeching of steam-glutted cauldrons rending…
Shock of leviathans prone on each other…
Scaled flanks touching, ore entering ore…
Steel haunches closing and grappling and swaying
In the waltz of the mating locked mammoths of iron,
Tasting the turbulent fury of living,
Mad with a moment’s exuberant living!
Crash of devastating hammers despoiling..
Hands inexorable, marring
What hands had so cunningly moulded…

Structures of steel welded, subtily tempered,
Marvelous wrought of the wizards of ore,
Torn into octaves discordantly clashing,
Chords never final but onward progressing
In monstrous fusion of sound ever smiting on sound
in mad vortices whirling…

Till the ear, tortured, shrieks for cessation
Of the raving inharmonies hatefully mingling…
The fierce obligato the steel pipes are screaming…
The blare of the rude molten music of Iron…

 

Rubens Chinali Canarim (1988) é poeta e tradutor. Atualmente trabalha em seu primeiro livro, e com a tradução do inglês Alfred Tennyson. Possui publicações no blog Escamandro e na revista (n.t.) Revista Literária em Tradução.

 

 

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