“mermaid in the glass of water” de Nina Rizzi traduzida por Rafaela Miranda

Nina Rizzi (SP, 1983) é historiadora, tradutora e poeta, vive em Fortaleza/CE (Brasil). Autora de tambores pra n’zinga (poesia, Orpheu/ Ed. Multifoco, 2012), caderno-goiabada (prosa ensaística, Edições Ellenismos, 2013), Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução, Edições Ellenismos, 2013), A Duração do Deserto (poesia, Ed. Patuá, 2014), Romério Rômulo: ¡Ah, si yo fuera Maradona! (versão em espanhol), geografia dos ossos (poesia, Douda Correria, Portugal, 2016), Oscar Hahn: Tratado de Sortilégios (tradução, Lumme Editor, 2016); quando vieres ver um banzo cor de fogo (poesia, Editora Patuá, 2017). Publica em blog e coedita a revista escamandro poesia tradução crítica.

 

Sobre traduzir ‘mermaid in the glass of water’ por Rafaela Miranda

No início desse ano, em março, me inscrevi numa oficina de tradução chamada “Você consegue ler meus hieróglifos?” de Julia Raiz e Beatriz Guimarães no Farol Estúdio (RJ). A proposta era trabalharmos a partir dos Estudos Feministas da Tradução. Foram dois dias em que perguntas acerca de linguagem, política, papel da(s) tradutora(s) e sua agência no texto de outrem foram feitas. Discutimos se o trabalho da tradução poderia ser considerado neutro, uma vez que quem se propõe a essa tarefa leva para a mesma sua própria bagagem — e me atenho a esse vocabulário porque deslocamentos, fronteiras foram palavras constantes e que perambulavam entre nós naqueles dias.

Aliás, por falar em viagens e viajantes, diz Pilar Godayol: “a tradutora há de aprender a viver e negociar em espaço de fronteira”. Anotei no meu caderno essa citação para não esquecer de viver — no trabalho, na pesquisa, na vida etc — “em constante movimento”, afinal se envolver numa outra língua, e, portanto, cultura, demanda escapar das amarras constitucionais e opressoras que edificam uma nação, pátria, ou qualquer outro espaço delimitado pelo poder.

Pois bem, cheguei na poemasereia no copo d’água” de Nina Rizzi, era hora de colocar em prática o que havíamos esmiuçado na teoria. A ideia era escolher uma poema em português-brasileiro e passá-lo para uma outra língua que fosse de nosso conhecimento. Escolhi a língua inglesa por causa dos meus estudos e pela familiaridade com ela. A dificuldade inicial se dá pela própria língua em que Rizzi escreve. Quando lemos “sereia…” nos deparamos com construções sintáticas incomuns para o português. A poeta escreve numa língua somente sua uma poema onde a experiência da gravidez interrompida precisasse passar por significantes que expressassem sua dor. Assim, versos como ‘[…] rasga o ventre da tua mãe, tupã!/ rasga esse corpo ex-prenhe que te prende!’ se tornaram ‘[…] tear your mother’s womb apart, tupã!/ tear this ex-pregnant body that captures you apart!’.

Passar para o inglês o traço reflexivo presente na poema me fez recorrer a neologismos (‘[your diving] hurts mebody’) que contivessem em si a ideia expressa numa oração (‘[seu mergulho que] me dói o corpo’).

A poema de Rizzi evidencia as marcações de gênero e, por isso, optei por acrescentar palavras ou pronomes que correspondessem a proposta da poeta, ‘nadador’ e’ nadadora’ se tornaram, respectivamente, ‘swimming-boy’ e ‘swimming-girl’. Da mesma forma, ‘mandoctor’ alude a ‘homédico’, construções que reúnem uma profissão, médica, a um gênero, o masculino, criando uma imagem irônica desse ser que faz o anúncio definitivo, ‘aborto’, para a ex-mãe. A própria concepção de Rizzi sobre poesia nos indica que poema é um substantivo feminino, portanto ‘a poema’ se torna ‘she-poem’.

‘sereia no copo d’água’ é uma poema que transita dentro de uma mito-poética brasileira onde nomes como ‘tupã’ e ‘geronimo’ circulam; e, ao fazerem essa passagem para outra língua, abrem espaço para esse outro contato, agora em inglês. Na tradução proposta: ‘mermaid in the glass of water’.

Revisão da tradução: Julia Raiz

 

 

mermaid in the glass of water 

i read ‘trocando fraldas’
each verse holds my vision of you baby swimming-boy
swimming-girl? you’ll never have a gender to languish you
geronimo the indigenous appears to me while i grieve the vision of you before the fall

why do you fly, tupã?
where do you want to go so deep in the water?
if my body holds you all liquid?

we would fly far beyond this submerged city
little houses with jabuticabeiras, cemented seats
hens that scratch the generosity and give us their egg-children

i gave you my best ovaries
– the best is craving, that will and power

water runs from me, bleed
pieces in between my legs
this pain much more shattering than your sister’s birth

swim through my depths slipping away to the bottom of the latrine
so far seen from here it seems the sewage and nothing like a rose bush
my eyes are your amniotic fluid
your diving hurts mebody makes real the grieve that arise
from the heart. tear your mother’s womb apart, tupã!
tear this ex-pregnant body that captures you apart!

“absence of heart rate”

what does your heart do that doesn’t beat
but it beats me, it beats me?

i place my hands on my heart
i can only hear the shipwreck running through my eyes
– listen! my wobbly legs await for you

i see you dive, translucent-incarnated baby
you are palm-sized like my most beautiful hand
your incomplete arms and legs shape
the last panel of the delights garden
if i close the triptych the world closes on me
i close my eyes
crying loudly the convulsion
mother in the glass of water

i sink my hand in blood
my vagina hurts so
oxalá i could conceive the happier she-poem to say pussy
i sink your hand into the blood
until the hands everything bleeds
baby in the palm of my most beautiful hand
i dive you in these tears the fuller glass

i don’t give you birth
neither do i give it to me
my breasts flow on me
i burn, i tear, i transverse the day
and you are the bird that escapes from my body-cage
me-cage i don’t convert myself into bird

i open my mouth

tupã. tupã. tupã.

why do you fly from me if my feet are touching the dry land?
why do you fly from me if the cage closes on me?
i burn, i tear, i transverse the day
and in my delirium such bitter fruits are mixed to my bowels
in bad-omens
i open my mouth

tupã. tupã. tupã.

half of me dies when the mandoctor tells me abortion
half of me dies with the vision of you as a latrine swimmer

and fly, fly stone-heart bird. swim far from this body of water
swim far towards the depth
swim far from the children who dream of milks
swim far off the word mother

you leave me. you leave me. you leave me.

the delirium covers my eyes
am i sleeping?
we got no little houses, jabuticabeiras, little she-goats

i don’t hold you anymore
sink and fly till the end
swim far away till the end

your body disappears, i am that dissolution too
shadow of your shadow

the great mother of the night comes to visit me
am i sleeping, mother?
what can i be now if i can’t be the mother for you?
the immense mother open the night’s mouth
it is a glass
i am your woman
mermaid in the glass of water

 

Rafaela Miranda é graduanda da Faculdade de Letras (UFRJ). Pesquisa as relações entre performance, linguagem e corpo preto, com foco na obra da performer e ensaísta Jota Mombaça. Também atua como revisora, tradutora e coeditora da Revista Odara. Atualmente, traduz a poesia de Audre Lorde, é possível conferir seu trabalho aqui.

 

 

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