Imaginando Violência: “O Poder” da Fantasia Feminista, de Elaine Showalter, traduzido por Emanuela Siqueira

Elaine Showalter nasceu em 1941, em Boston, nos Estados Unidos. É uma das principais teóricas e críticas feministas sendo a fundadora da chamada ginocrítica, que como ela mesma define é pensar “a mulher como escritora…levando em consideração a história, temas, gêneros e estruturas da literatura escrita pelas mulheres”. Desde 1969 ela organiza disciplinas na área dos estudos feministas, inaugurando essa área em grandes universidades estadunidenses como Princeton.

Infelizmente os livros de Elaine Showalter ainda são parcamente traduzidos no Brasil, um dos seus livros mais conhecido é também sua tese de doutorado, A Literature of Their Own: British Women Novelists from Brontë to Lessing (1977), no qual faz uma análise histórica da literatura escrita por mulheres. Ainda conta na sua bibliografia outros importantes estudos feministas como Sister’s Choice: Tradition and Change in American Women’s Writing (1991) e Inventing Herself: Claiming a Feminist Intellectual Heritage (2001).

O interesse nessa tradução surge com alguns estudos que tenho feito sobre as noções de utopia/distopia e as suas construções na história da literatura, focando a representação das mulheres nas narrativas canônicas. Depois de observar a ausência quase total de mulheres em livros utópicos como Robinson Crusoé e as ideias de fêmea em Viagens de Gulliver, me dei conta que no final do século XIX e começo do XX, a viragem das narrativas de A Ilha do Dr Moreau e Admirável Mundo Novo colocava as mulheres como seres perigosos e necessários de serem domados. Não é estranho que as primeiras histórias utópicas escritas por mulheres (pelo menos até onde sabemos hoje) sejam repletas de medo. Apesar de contarem com elementos classicamente utópicos, como a ideia de comunidade isolada por sobrevivência, outros são encenados como situações de pura violência quando acontece o encontro com homens, como bem apresenta Showalter falando de Angel Island, da já esquecida escritora e sufragista Inez Haynes Gillmore, por exemplo.

Esse ensaio de Elaine Showalter no The New York Review of Books é fundamental não apenas pela recente publicação do livro em questão, O Poder (Planeta, 2018, tradução de Rogério Galindo), mas pela necessidade de fortalecer os estudos literários feministas nos gêneros de fantasia, ficção especulativa e ficção científica. Não se trata apenas de apresentação e divulgação das obras e da latente necessidade de tradução destas, mas da abertura de novas discussões sobre tema, estética e política na literatura escrita pelas mulheres.

Imaginando Violência: “O Poder” da Fantasia Feminista

Ensaio publicado no New York Review of Books, em fevereiro de 2018.

Não pode ser coincidência que um dos romances que recebeu maior atenção internacional este ano seja sobre mulheres machucando homens. No best-seller de Naomi Alderman, O Poder (2017; publicado pela primeira vez no Reino Unido em 2016), meninas adolescentes descobrem que têm em suas mãos uma força eletrostática devastadora e que podem usá-la para causar choques, torturar e matar. A força vem de um músculo estriado perto da clavícula que os cientistas, alarmados, chamam de meada, e que podem observar através de exames de ressonância magnética de meninas recém-nascidas. As adolescentes, também, podem ajudar mulheres mais velhas a ativar seu Poder.

Começando na Arábia Saudita, e seguindo para outros países, as mulheres tomam o controle político e se vingam violentamente dos homens que as escravizaram e abusaram. Elas usam o Poder para se defenderem e se libertarem, e isso muda a visão que têm de si mesmas. “Se você pudesse viver sua vida de modo que fosse capaz de machucar quando precisasse”, disse Alderman à NPR, “ela seria tão diferente, mesmo que você nunca tivesse que recorrer a isso. Faz com que você tenha menos medo o tempo todo”. Uma menina eletrocuta o pai adotivo que tem a estuprado regularmente: “Ele espasma e sai de cima dela. Ele está tremendo … Cai no chão num sonoro baque.”

Mas o Poder corrompe rapidamente e algumas mulheres tornam-se predatórias e cruéis. Uma policial de guarda sente-se obrigada a fazer de exemplo um jovem desordeiro agressivo. “Seu couro cabeludo estala na mão dela. Ele grita. Dentro de seu crânio, o líquido está cozinhando … A corrente elétrica está ferindo ele, mais rápido do que se poderia imaginar … O corpo tropica para frente, de cara com a sujeira”. E os homens contra-atacam com ainda mais brutalidade; tentam destruir ou roubar o Poder cirurgicamente, cegar e confinar as mulheres, usar armamento pesado contra elas. No entanto, apesar das consequências, Alderman acredita que ser capaz de ferir e matar seria transformador para as mulheres: “Se eu pudesse dar às mulheres que estão sendo traficadas hoje mesmo em algum porão sujo, esperando para ser estupradas”, disse ela na mesma entrevista, “se eu pudesse dar a elas o poder de eletrocutar as pessoas à vontade, mesmo sabendo que isso poderia acabar mal, eu daria”.

Esse romance ousado e perturbador recebeu o Baileys Women’s Prize de ficção, foi listado entre os dez melhores livros de 2017 pelo The New York Times Book Review, e ainda citado por Barack Obama como uma das suas leituras favoritas do ano. Mas não é apenas um livro de ocasião. O Poder é uma importante inovação na sobreposição dos gêneros utopia/distopia feminista, ficção científica e ficção especulativa. Tradicionalmente, essas narrativas de autoria de mulheres têm sido não-violentas e visionárias.

Um dos meus primeiros exemplos favoritos é A Dream of the Twenty-First Century, uma narrativa publicada em 1902 pela escritora estadunidense Winnifred Harper Cooley. Em um sonho, a autora é visitada por uma “menina saudável e magnífica” do futuro, “produto de um século de liberdade”, que descreve a utopia que está por vir nos Estados Unidos. Entre os males extirpados está a pobreza, a doença, a desigualdade sexual, a ignorância, o crime e a guerra; mas a donzela também relata que uma população esclarecida finalmente corrigiu “um colégio eleitoral absurdo” que “registrava os votos dos Estados ao invés de contabilizar os da maioria da população”.

No clássico Herland (1915), de Charlotte Perkins Gilman, três aventureiros estadunidenses partem para uma expedição científica a fim de encontrar a lendária Ladyland ou Feminisia, e desembarcam em um país só de mulheres, governado por elas que são bonitas, sábias, maternais, cooperativas, carinhosas e calmas. Cada explorador se apaixona por uma mulher de Herland, mas nem todos conseguem se adaptar a uma sociedade que é contra a violência, baseada na coletividade ao invés da competição e avessa a “matar coisas”. Quando o homem mais agressivo dispara sua arma para cima, ele é anestesiado e, por fim, deportado. Mas se as mulheres, em uma utopia feminista, têm vantagem de poder físico, intelectual ou estratégico, a autora geralmente encontra um meio de elas compartilharem isso com homens merecedores. Na sequência de Gilman, With Her in Ourland (1916), o homem convertido com maior sucesso leva sua esposa de volta aos Estados Unidos logo depois do começo da Primeira Guerra Mundial, para aprender com ela. Gilman, inclusive, admite que “homens são pessoas, assim como mulheres são”.

Edições traduzidas no Brasil.

O surgimento da ficção utópica feminista nos anos de 1970, incluindo o romance comunal e espiritual de Dorothy Bryant, o romance The Kin of Ata Are Waiting for You (1976; primeiro publicado como The Comforter: A Mystical Fantasy, 1971), e The Word for World Is Forest (1976), de Ursula LeGuin, em que a invasão masculina em um planeta matriarcal introduz a matança, dá continuidade aos temas pacifistas de Gilman. De fato, a resistência das mulheres, nessas histórias, ao poder masculino raramente é física, violenta ou militarizada. Mesmo em O Conto da Aia (1985), de Margaret Atwood, a distopia feminista mais famosa do século XX, as mulheres não se levantam contra os homens de Gilead. Elas não tentam matar os Guardiões, Comandantes, Olhos ou Anjos. Na verdade, o único ataque a um homem acontece quando um espião Mayday é capturado e está prestes a ser destroçado; uma Aia o salva com um chute rápido na cabeça. Apesar das infinitas possibilidades da imaginação, a maioria das ficções feministas especulativas podiam exibir o slogan: “Nenhum homem foi mal tratado na escrita desses livros”.

No entanto, a raiva e o desejo de vingança contra opressores homens surgiram na escrita distópica das mulheres durante os períodos de revolta e protestos feministas. Podemos verificar durante a primeira onda do movimento sufragista. Inez Haynes Gillmore, escritora estadunidense e sufragista, escreveu que “Quando a primeira militante na Inglaterra atirou o primeiro tijolo, meu coração voou com ele. Depois disso eu me tornei muito crente das táticas militantes” Em princípio, Gillmore acreditava que as militantes deveriam executar ações que sempre funcionaram para os homens: “rebelião e violência” Todavia, ela também pensava o suicídio, na prática, como uma tática sufragista:

Uma mulher jovem, capaz, bem-sucedida e feliz se mata em Boston, deixando um bilhete “Morro porque as mulheres não são livres”… Na semana seguinte outra jovem comete suicídio em Nova Iorque e deixa um bilhete parecido. Na outra semana talvez aconteça em Chicago… Washington… Seattle… San Francisco… Nova Orleans… Consegue imaginar o terror, que horror se espalharia pelo país, enquanto os pais se perguntam entre si, “nossa filha será a pŕoxima?”

Certamente, em uma ficção especulativa feminista, o suicídio é mais comum do que o arremesso de tijolos – sem contar os homicídios – como forma de protesto. Estas contradições entre autodefesa e auto-sacrifício aparecem de maneira dramática no romance amplamente esquecido de Gillmore, Angel Island (1914). Precursor de Herland, conta a história de cinco homens naufragados em uma ilha deserta do Pacífico sul, que se descobrem sendo visitados e observados por cinco magníficas mulheres aladas. No começo, eles ficam impressionados e intimidados. Mas logo decidem que devem capturar as mulheres e forçá-las a acasalar e procriar: “O futuro justifica qualquer coisa. Se essas meninas não aceitam, devem ser obrigadas a aceitar”. Com espelhos, lenços e jóias brilhantes saqueadas do navio, eles atraem as mulheres para uma cabana que chamam de Clubhouse; trancam elas lá dentro; as amarram nas paredes com “as mãos atadas na frente”; e então, enquanto elas lutam e gritam, cortam-lhes as asas com tesouras afiadas.

As Angels sobrevivem, mas sem as asas elas são domesticadas, tornam-se dóceis e indefesas, mal podendo andar com seus pés vestigiais e totalmente dependentes dos homens. Elas casam-se com seus sequestradores e têm filhos. Mas quando percebem que os homens também estão planejando cortar as florescentes asas de suas filhas, a líder Julia decide que “nós mulheres, devemos parar de querer voar. Precisamos parar de desperdiçar nossa energia meditando sobre o passado… precisamos aprender a andar ”. Com muita dor, aprendem a mancar, depois a correr com seus pés minúsculos e a voar com suas asas atarracadas (cortadas a cada seis meses). Em uma cena triunfante, elas escapam com as crianças. Mas o livro não termina aí. Elas não atiram uma pedra na Clubhouse ou voltam para a sua terra natal. Em vez disso, os homens pedem desculpas e convencem as mulheres a voltar, prometendo não cortá-las mais. De fato, as Angels estão radiantes por se reunirem com seus maridos e, tendo conquistado essa concessão, estão prontas para compartilhar seu poder de voar com os homens. Sem demora, Julia tem um filho com asas.

Ursula LeGuin, que escreveu a introdução de uma reimpressão de Angel Island, em 1988, apontou que Gillmore conduziu a cena da tosa “de forma evasiva”; não é mostrada como uma “orgia sadomasoquista generalizada”. Além disso, “as mulheres nem sequer agem com raiva. Elas choram. Ficam um pouco ensandecidas e se recompõem.” Elas não planejam revidar ou empunhar suas próprias tesouras. No entanto, LeGuin conclui, reprimir uma matança e evitar uma resposta sangrenta foi o crédito de Gillmore. “Ao nos dar nenhuma das duas, Gillmore deixa espaço para mostrar … uma raiva real e eficaz, que não se expressa na violência” LeGuin argumenta que Gillmore queria que “todos voássemos juntos” – um fim edificante e feminista utópico para um livro muito distópico.

A questão da violência feminina realmente não foi considerada na ficção feminista até os movimentos de libertação da década de 1970. Em um congresso de mulheres em Nova York, no início da década, o momentâneo grupo radical The Feminists vendeu uma história chamada “The Twig Benders”, que descreviam, ironicamente, como “pornografia feminista”. Assinada por “Wilda Chase”, mimeografada em papel rosa na parte de trás de um panfleto de uma manifestação pró-aborto, e custando vinte centavos, “The Twig Benders” revertia os papéis de gênero da pornografia masculina sádica. Na história, as mulheres se satisfazem sexualmente, de forma explosiva, ao humilhar, espancar, estuprar e matar meninos e homens. O ponto, claro, não era excitar as feministas, mas reformular e tornar chocantemente visível o violento abuso sofrido pelas mulheres na escrita pornográfica feita por homens. A autora, cujo nome real era Wilda Holt, era uma sobrevivente de incesto e abuso sexual. A raiva e o desespero a perturbaram tanto que, em meados da década de 1970, ela estourou a própria cabeça com uma pistola.

Nunca publicada, nem mesmo submetida à publicação, “The Twig Benders” hoje sobrevive apenas em alguns arquivos acadêmicos da história feminista, mas é estranhamente semelhante a algumas cenas de O Poder e a alguns outros textos feministas de ficção dos anos de 1970. Enquanto curva o galho, a árvore cresce, assim, as escritoras que imaginam a violência copiam os temas da escrita dos homens. O trabalho de Holt era parte de um número muito pequeno de histórias e romances feministas – uma subcorrente significativa, embora anômala, no córrego plácido daquela década – que exploravam as fantasias das mulheres sobre resistência e retaliações violentas. Em The Female Man (1975), de Joanna Russ, ambientado no planeta de mulheres Whileaway, Alice Jael Reasoner, uma híbrida humana-animal, libera seu poder oculto – garras afiadas e dentes de aço – para matar um invasor Manland que a ameaça de estupro. “Era necessário ir tão longe?”, seus amigos perguntam de forma inquietante. “Eu não dou a mínima se era necessário ou não”, responde Jael. “Eu gostei”

Woman on the Edge of Time (1976), de Marge Piercy é um dos clássicos da ficção feminista idealista dos anos de 1970. Em sua introdução à edição de 2016, Piercy situou o livro na segunda onda do feminismo quando “as utopias feministas eram criadas a partir de uma fome daquilo que não tínhamos, em uma época em que a mudança parecia não apenas possível como provável”. A protagonista, Connie Ramos, é uma mulher mexicana-americana do Spanish Harlem que está confinada em um hospital psiquiátrico parecido com Bellevue, onde, fortemente drogada, ela tem uma visão de uma utópica sociedade igualitária do futuro. Sua vida real, no entanto, é um inferno distópico de pobreza, abuso e impotência. Nas páginas finais do romance, esperando na enfermaria para ser lobotomizada, Connie coloca veneno no bule de café dos funcionários. “Eu não sinto muito, pensou, seu coração batendo terrivelmente, e sentou na cama, esperando”

Sheel, uma amazona em Motherlines (1978), de Suzy McKee Charnas, é uma tenaz guardiã que vigia as terras fronteiriças entre as planícies abertas e Holdfast, cidade controlada por homens, que mantém as “fems” escravizadas e envia guerreiros para capturá-las. “Ela matou um total de sete homens durante uma dúzia de patrulhas em sua vida: quatro à distância com um arco e flecha, quando teve certeza de seu alvo, três de perto, atacando estrategicamente a cavalo para levar sua lança de caça para casa” Sheel é uma das raras combatentes da ficção distópica feminista que parece ter tido êxito; no fim das contas, as mulheres estão esperançosas de que “Holdfast seja um lugar tranquilo e os homens não perigosos”. Mas o/a leitor/a não pode ter certeza.

Em 2007, a escritora britânica Sarah Hall fez da contra-violência feminista o tema de seu romance Daughters of the North (publicado no Reino Unido como The Carhullan Army). Em uma distopia pós-apocalíptica, ambientada no extremo norte da Inglaterra, algumas mulheres que se chamam de Irmãs voluntariam-se para um treinamento longo e excruciante de guerrilha, a fim de atacar a fortaleza urbana da Autoridade, formada por homens. Em seu enclave espartano, Jackie Nixon, a líder fanática, sujeita as mulheres à dor e à privação, querendo fortalecê-las. “O que você acha, Irmã? Ou isso é competência de homem?” Ela as insulta. “Somos naturalmente pacifistas? Um sexo mais frágil? Temos que nos submeter para sobreviver?” O romance foi bem recebido na Grã-Bretanha, onde ganhou o Prêmio John Llewellyn Rhys e na comunidade de ficção científica, onde recebeu o Prêmio James Tiptree Jr.. Mas, nos Estados Unidos, as críticas foram majoritariamente negativas, e a resenha da New Yorker sequer mencionou a temática mulher-combatente.

Talvez uma geração mais jovem de feministas tenha se tornado impaciente com as vítimas passivas das distopias. Debatendo O Conto da Aia, tardiamente em 2008, Jessa Crispin ponderou: “Ok, quando essas mulheres começam a esfaquear as pessoas?” Agora, em O Poder, a distopia feminista violenta tornou-se muito mais popular, e Margaret Atwood é sua madrinha. No final de 2011, Naomi Alderman ganhou a oportunidade de ser tutelada por Atwood no Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, uma competição criada em 2002 para “garantir que a herança artística do mundo seja passada para a próxima geração”. Em uma de suas falas mais citadas, Atwood brincou: “Os homens temem que as mulheres vão rir deles. As mulheres temem que os homens as matem”. Alderman leva esse epigrama a sério. O Poder começa com a premissa de que “grande parte da vida das mulheres é … circunscrita pelo potencial masculino de violência”. Ter a capacidade de matar homens, assim como rir deles, muda a autoimagem das mulheres e suas oportunidades.

Alderman queria mostrar aos leitores como a vida das mulheres seria diferente se não tivessem medo. Como ela disse a um entrevistador do Literary Hub, esperava que elas se perguntassem:

Como seria a minha vida? Como isso mudaria as coisas para mim? Como isso mudaria as coisas para minha filha? Como meu trabalho seria diferente? Como meu trajeto de volta para casa do escritório, tarde da noite, seria diferente? Como minha educação escolar teria sido diferente? Como aquele encontro que tive esta manhã seria diferente?

Ainda que ela também, de forma vigorosa, encene a futilidade da violência e sua inevitável escalada que termina no Armageddon.

Então, por que essa fantasia agora? Alderman está refletindo e canalizando a raiva de uma geração de jovens feministas que não perdoará, desculpará, encobrirá e aceitará o abuso masculino. É significativo que o Poder surja primeiro na adolescência e que as meninas conscientizem as mulheres mais velhas. Durante décadas, tem havido muita retórica sobre feministas da terceira onda, politicamente conscientes, criticando feministas “ingênuas” da segunda onda, e feministas millennials da quarta onda olhando por baixo as revisionistas de terceira onda. Mas desta vez é diferente.

As mulheres estão dispostas a usar seu poder público para destruir as carreiras dos homens, romper seus casamentos e até mesmo mandá-los para a prisão. Elas não estão dispostas a compartilhar seu poder com qualquer homem que se desculpe e usa um botton do Time’s Up!. Se, como Lindy West escreveu recentemente, “o feminismo é a manifestação coletiva da raiva das mulheres”, essa onda feminista é um tsunami. Alderman se vê como parte dessa onda. “Algumas notícias mais recentes já apareciam no livro de maneira muito singular.” disse ela ao Times. “Ambos têm sido parte de uma crescente raiva na última década, que, para mim, está relacionada à crescente visibilidade de certos tipos de misoginia.”

Seria O Poder o começo de uma tendência literária? Ainda é cedo para dizer, pois o romance de Alderman também pode provar-se uma exceção à tradição literária feminista. Mas a raiva não está indo embora. Parece claro, pelo menos, que nenhuma feminista quer voltar para Angel Island.

Emanuela Siqueira é mestranda em estudos literários pela UFPR. Pesquisa as mulheres na Geração Beat, mais especificamente a poeta Elise Cowen. Traduziu recentemente o volume de ensaios “A Leitora Incomum”, de Virginia Woolf, pela editora Arte & Letra. No momento se interessa em traduzir mulheres em vanguarda e na primeira metade do século XX.

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