3 poemas de Alicia Ostriker por Bernardo Beledeli Perin

Celebrada poeta e crítica literária, Alicia Ostriker nasceu em Nova York, em 11 de novembro de 1937. Publicou as coleções de poesia Songs: a book of poems (1969); Once More Out of Darkness and Other Poems (1974); A Dream of Springtime: Poems 1970–1978 (1979); The Mother/Child Papers (1980); A Woman Under the Surface (1982); The Imaginary Lover (1986, ganhador do William Carlos Williams Prize); Green Age (1989); The Crack in Everything (1996); The Little Space: Poems Selected and New, 1968-1998 (1998); No Heaven (2005); The Volcano Sequence (2002); The Book of Seventy (2009); At the Revelation Restaurant and Other Poems (2010); The Old Woman, the Tulip, and the Dog (2014); Waiting for the Light (2017). Sua obra poética reflete sua identidade enquanto judia e enquanto feminista, perspectivas que também permeiam seus trabalhos de não-ficção. Demonstra interesse particular pelos movimentos de revisão das narrativas tradicionais e hegemônicas, do que resultaram volumes importantes como Writing like a Woman (1983), Stealing the Language: The Emergence of Women’s Poetry in America (1986), The Nakedness of the Fathers: Biblical Visions and Revisions (1997) e Dancing at the Devil’s Party: Essays on Poetry, Politics and the Erotic (2000). Formada pela Brandeis University e pela University of Wisconsin-Madison, segue baseada em sua cidade natal, onde é professora do programa de poesia e poesia em tradução da Drew University.

Minha relação com a poesia da Alicia Ostriker é algo recente: cheguei até ela por estudar a reescrita de mitos e contos de fadas numa perspectiva feminista na poesia de Carol Ann Duffy, questão também discutida por Ostriker em “The Thieves of Language: Women Poets and Revisionist Mythmaking” (In: 1986). A força de sua voz poética me impressionou, tanto pela imagética direta e sutileza no emprego dos efeitos sonoros como também pelo humor mordaz e, talvez principalmente, pela honestidade intensa e visceral – na visão da escritora, “Poetry can tear at the heart with its claws, make the neural nets shiver, flood us with hope, despair, longing, ecstasy, love, anger, terror” (“A poesia pode dilacerar o coração com suas garras, fazer tremer nosso sistema nervoso, nos inundar de esperança, desespero, saudade, êxtase, amor, raiva, terror”). Os poemas aqui apresentados são do livro A Woman Under the Surface (1982), escolhidos a partir de um eco afetivo sentido com os textos, e a tradução procura reconstruir suas características definidoras ao mesmo tempo em que busca por uma voz coerente para a Alicia Ostriker em português.

 

A MERGULHADORA

Dada por inteiro à água, uma mergulhadora
Surge duma rocha, veleja pelo ar,
Colide, naufraga.

Ela agora recorda-se de tudo, da privacidade
Fria e doce, dessa instantânea
Perda do nome. Lembra que afogar-se

É uma possibilidade, como não afogar-se.
Ela abre os olhos. Rebrilho
Ondulado. Límpido

Como um nascimento, um casamento, o suicídio à frente
De algumas vidas, joias numa corrente. Move-se
Livre sobre o cascalho cintilante

Lá do fundo,
Braças adiante, e ao também mover-se ela,
Esboça um sorriso ao pensar sobre isso.

Ninguém ri, sob a superfície.
Ninguém diz a mergulhadora é uma tola.
Estes ficaram lá em cima, debaixo do calor,

E ela até gostaria de gritar
Para eles, podem vir,
A água está uma delícia.

Mas abre seus braços e bate os pés no lugar.
O fundo se aproxima,
É como uma prece o que o corpo dela faz.

 

THE DIVER
Giving the self to water, a diver
Lifts from stone, sails through air,
Hits, goes under.

Now she remembers everything, this cold
Sweet privacy, the instantaneous
Loss of her name. She remembers that drowning

Is a possibility, like not drowning.
She opens her eyes. Light
Ripples. It is clean

As a birth, a wedding, a suicide ahead
In somebody’s life, a chain of jewels. It moves
Freely above the glinting gravel

Of the bottom,
Fathoms away, and as she also moves,
It makes her glad to think about that.

Nobody laughs, under the surface.
Nobody says the diver is a fool.
They are all up above, standing in the heat,

And she would like to call
Up to them, come on in,
The water’s fine.

Instead she extends her arms and kicks her feet.
The bottom comes closer,
The diver’s body is saying a kind of prayer.

 

A TROCA

Eu observo a mulher que nada sob a superfície
Do canal, seu corpo poderoso transluzindo,
Opalescente, o cabelo escuro tremulando
Feito alga. O fôlego dela não acaba. Ela olha

Para cima, no compasso da canoa alugada.
Doces, espessos, os brotos claros dos espinheiros
Exalam seu perfume. Um tordo de asa vermelha voa
Sobre a água preguiçosa. Meus filhos remam.

Se eu decidir mergulhar, se ela vier a bordo,
Muda, molhada, ela vai estrangular meus filhos
E lançar seus corpinhos moles na corrente.
Encharcada ainda, pegará meu carro, irá para casa.

Quando meu marido atender a campainha e vir
Essa magnífica mulher nua, respingos de sol
Cintilando na lã púbica, com musculoso
Braço ela envolverá seu pescoço, por cada ofensa

Suportada. Ele verá o tordo que ela tem no olho,
Sua boca que seca, incapaz de fala,
E eu, tendo trocado com ela, nadarei
Para longe, fora de alcance, na água gelada.

 

THE EXCHANGE

I am watching a woman swim below the surface
Of the canal, her powerful body shimmering,
Opalescent, her black hair wavering
Like weeds. She does not need to breathe. She faces

Upward, keeping abreast of our rented canoe.
Sweet, thick, white, the blossoms of the locust trees
Cast their fragrance. A redwing blackbird flies
Across the sluggish water. My children paddle.

If I dive down, if she climbs into the boat,
Wet, wordless, she will strangle my children
And throw their limp bodies into the stream.
Skin dripping, she will take my car, drive home.

When my husband answers the doorbell and sees
This magnificent naked woman, bits of sunlight
Glittering in her pubic fur, her muscular
Arm will surround his neck, once for each insult

Endured. He will see the blackbird in her eye,
Her drying mouth incapable of speech,
And I, having exchanged with her, will swim
Away, in the cool water, out of reach.

 

ANSIEDADE SOBRE A MORTE

Não é nada pior que aquilo
descoberto na cadeira do dentista
sob o óxido nitroso.

O maxilar todo se foi, reclamo, as gengivas, o osso,
duas enormes obturações perdidas. Do que eu preciso?
Talvez da guilhotina? diz meu dentista, o palhaço.

A única causa possível do medo é o medo em si, lhe digo.
Você acredita nesse lixo? ele diz,
começando no meu pré-molar apodrecido.

Agora vem a melhor parte. Respirando o gás da alegria,
consigo responder tudo aquilo que sempre quis saber
sobre a morte mas tive medo de perguntar.

Será que vai doer? Sim.
Vão sobrar desejos por satisfazer? Sim.
Meu potencial humano ainda por realizar? Sim.

Tem algum jeito de deixar isso pra lá? Certamente.
Posso recomendar meu espírito aos dezessete
anjos assoviando do lado de fora do vidro?

É claro. Como é bom o gás da alegria.
Que ótima companhia.
Afrouxo e abro meu punho suado.

Dou tchauzinho para os dentes.
Parece que embarcaram no trem e saem de férias.
Vou encontrá-los no campo qualquer dia desses.

 

ANXIETY ABOUT DYING

It isn’t any worse than what
I discover in the dentist’s chair
under the nitrous oxide.

The whole jaw is going, I complain, the gums, the bone,
two enourmous fillings lost. What do I need?
Maybe a guillotine? says my dentist, the joker.

The only thing I have to fear is fear itself, I tell him.
You believe in that bullshit? he says,
setting to work on my rotting bicuspid.

Now comes the good part. Breathing the happy gas,
I get answers to all the questions I had
about death but was afraid to ask.

Will there be pain? Yes.
Will my desires still be unsatisfied? Yes.
My human potential remain unrealized? Yes.

Can a person stop minding about that? Certainly.
Can I commend my spirit to the seventeen
angels whistling outside the dentist’s window?

Of course. How nice the happy gas.
What a good friend.
I unclench my sweaty little hand.

I wave goodbye to my teeth.
It seems they are leaving by train for a vacation.
I’ll meet them in the country when I can.

 

Bernardo Beledeli Perin é tradutor e mestrando em Estudos da Tradução pela UFSC, onde prepara a tradução do livro The World’s Wife da poeta Carol Ann Duffy. Cursou Letras Inglês/Português na UFPR. Se interessa pela poesia escrita por mulheres a partir da segunda metade do século XX e por tradução poética comentada. Possui traduções publicadas pelo blog escamandro, pelo jornal literário O RelevO e pela Arcana — Revista de Arte e Poesia Mística. Planeja um livro de poemas e ilustrações para um futuro não tão distante.

 

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