Christina Rossetti, Alice Moore Dunbar-Nelson, Elizabeth Barrett Browning e Amy Lowell: uma seleção poética traduzida por Victor Queiroz

After Death
(Christina Rossetti)

The curtains were half drawn, the floor was swept
And strewn with rushes, rosemary and may
Lay thick upon the bed on which I lay,
Where through the lattice ivy-shadows crept.

He leaned above me, thinking that I slept
And could not hear him; but I heard him say,
‘Poor child, poor child’: and as he turned away
Came a deep silence, and I knew he wept.

He did not touch the shroud, or raise the fold
That hid my face, or take my hand in his,
Or ruffle the smooth pillows for my head:

He did not love me living; but once dead
He pitied me; and very sweet it is
To know he still is warm though I am cold.

 

Post mortem

Cortinas entreabertas, chão varrido
de urgência, atapetado; sobre o leito,
deitam-se a flor e o aroma, onde eu me deito;
tremem, na gelosia, heras-indício.

Curvou-se sobre mim e, convencido
do sono e da surdez, eu escutei-o:
“Ó dó, ó dó”, segredo; e sobreveio
Silêncio fundo: o pranto invadira-o.

Não fez tocar sudário, ou ver-me o rosto
atrás do véu, ou pôr-me as mãos nas suas,
ou sob a nuca abaular-me o coxim;

Não fez amar-me viva; mas, no fim,
apiedou-se; e a mais doce doçura
é vê-lo corpo morno e eu corpo morto.

*

I sit and sew
(Alice Moore Dunbar-Nelson)

I sit and sew—a useless task it seems,
My hands grown tired, my head weighed down with dreams—
The panoply of war, the martial tread of men,
Grim-faced, stern-eyed, gazing beyond the ken
Of lesser souls, whose eyes have not seen Death,
Nor learned to hold their lives but as a breath—
But—I must sit and sew.

I sit and sew—my heart aches with desire—
That pageant terrible, that fiercely pouring fire
On wasted fields, and writhing grotesque things
Once men. My soul in pity flings
Appealing cries, yearning only to go
There in that holocaust of hell, those fields of woe—
But—I must sit and sew.

The little useless seam, the idle patch;
Why dream I here beneath my homely thatch,
When there they lie in sodden mud and rain,
Pitifully calling me, the quick ones and the slain?
You need me, Christ! It is no roseate dream
That beckons me—this pretty futile seam,
It stifles me—God, must I sit and sew?

 

Sento a coser

Sento a coser — tarefa à toa? talvez seja…
Cansam-se mãos, sonhar faz pesar-me a cabeça —
A panóplia da guerra, a marcha marcial
De rudes rostos, frios olhares sem igual
Entre as almas-padrão, que a Morte não têm visto
Nem a vida suster sabem, mais que um suspiro —
Mas — é mister sentar, coser.

Sento a coser — o peito ardente de desejos —
Aquele show atroz, chamas ferais, lampejos,
Em campos ermos; vis e sinuosas cousas —
Homens outrora. Alma apiedada, ousas
Aos prantos apelar, em ânsias de partir,
Ir lá, fero holocausto, aos campos de carpir —
Mas — é mister sentar, coser.

A parca e vã costura, esta estática emenda;
Por que sonhar aqui, na familiar fazenda,
Quando lá longe, em lodo e pluviôse, os vivos
E os mortos a clamar por mim clamor penível?
Ó Cristo, eu sou precisa! É sonho de candura
Que me acena? Não… — futilíssima costura,
Sufocas-me — Deus! é mister sentar, coser?

*

Lacquer Prints [by messenger]
(Amy Lowell)

One night
When there was a clear moon,
I sat down
To write a poem
About maple trees.
But the dazzle of moonlight
In the ink
Blinded me,
And I could only write
What I remembered.
Therefore, on the wrapping of my poem
I have inscribed your name.

 

Formas de laca [por correspondência]

À noite,
Quando havia lua clara,
Assentei-me a
Escrever poemas
Sobre os bordos.
Mas o clarão da lua
Sobre a tinta
Fez cegar-me,
E tão-somente pude
Escrever de cor.
Por isso, no envelope do poema,
Eu fiz gravar seu nome.

*

Sonnets from the Portuguese, V
(Elizabeth Barrett Browning)

I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchral urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see

What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,

It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up,… those laurels on thine head,

O My beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand further off then! Go.

 

Sonetos do português, V

Solenemente, eu ergo um coração que pesa,
tal qual outrora Electra a urna sepulcral,
e, olhando os olhos seus, eu faço derramal-
o: as cinzas aos seus pés. Contemple atento e veja

quão farta pira de pesar que em mim s’encerra,
e como tim’das chispas, de um ruivo feral,
queimam na massa cinza. E se seus pés, por mal,
fizerem desfazê-la inteiramente em trevas,

talvez não façam mal. Contudo, se, por vez,
esperar ao lado meu o vento vir soprar
o pó cinzento… os louros sobre a sua tez,

ó meu amado, não lhe haverão de escudar
de toda chama que lhe deva ferir, cres-
tar-lhe o cabelo abaixo. Afaste-se, então! Vá.

 

Christina Rossetti

(Londres, 05/12/1830 – 29/12/1894)

Grande voz da literatura vitoriana, divide com Elizabeth Barrett Browning o título de maior poeta de seu tempo. Nascida em uma família de letras, Christina é iniciada desde cedo na poesia: seus primeiros poemas datam de seus doze anos. Apesar da primeira coletânea impressa, Verses (1847), editada e publicada independentemente por seu pai, também poeta, considera-se que estreia de fato com o livro Goblin Market and other poems (1862), que viria a ser também seu trabalho mais conhecido e admirado. Vítima do colapso econômico de sua família e acometida por uma série de distúrbios de saúde, tanto físicos quanto psicológicos, dá voz, em seus poemas, a certa morbidez, a qual muita vez se dociliza pela graciosidade de seus acentos e de sua dicção, e ainda à condição da mulher de sua época – a vulnerabilidade econômica, sexual etc. Outra voz que canta sob seus versos é a voz da religião, devota que fôra; para além dos versos, escreveu, inclusive, obras devocionais em prosa. Diagnosticada com câncer de mama e submetida à mastectomia em 1892, não obtém sucesso no tratamento e morre dois anos mais tarde. Sua obra completa, editada pelo irmão, William Michael, em 1904, só foi publicada em 1979.

Alice Ruth Dunbar Nelson, née Moore

(Nova Orleans, 19/07/1875 – Philadelphia, 18/09/1935)

Novelista, poeta, ensaísta e crítica literária, a escritora afro-americana acabou mais conhecida por sua prosa do que pela poesia, permanecendo um tanto à sombra de seu primeiro marido, Paul Lawrence Dunbar, tido como figura exponencial da poesia negra norte-americana. Todavia, seu legado não pode ser negligenciado – seu poema I sit and sew é uma verdadeira obra-prima. Além: foi grande divulgadora da cultura crioula em seus contos e retratista da realidade negra estadunidense. Como crítica literária, teve papel fundamental na afirmação da Harlem Renaissance, importante movimento modernista, e de um de seus protagonistas, Langston Hughes.

Elizabeth Barrett Browning, née Barrett

(Durham, 06/03/1806 – Florença, 19/06/1861)

Figura maior da literatura vitoriana e poeta de cabeceira de Emily Dickinson, Elizabeth conheceu grande prestígio ainda em vida, fosse pela sua poesia, pela sua independência ou pela coragem de suas opiniões. Contudo, sua produção mais substancial tardou a aparecer: após lançar dois volumes anônimos em 1826 e 1833, foi forçada a um hiato, devido a sua saúde instável. Assim, só é dada a conhecer em 1838, quando do lançamento do primeiro livro assinado, The Seraphim and other poems. É com Poems (1844), porém, que se consolida, passando instantâneamente de promessa a celebridade. Os volumes aproximam-na de Robert Browning, também poeta, com quem se casará em segredo. Se, por um lado, o casamento custou-lhe o rompimento definitivo com o pai, por outro, rendeu-nos sua obra mais conhecida, Sonnets from the Portuguese (1850), dedicada ao marido, onde, não obstante o diálogo frutífero com a tradição do soneto (de Petrarca, Shakespeare e Camões), ainda procede a uma inversão de papéis: é a mulher que diz, que professa seu amor a um homem, que permanece em silêncio. Na maturidade, dedicou-se à poesia engajada, com destaque para o poema longo Aurora Leigh (1857), redescoberto pela crítica e hoje considerado um texto protofeminista.

Amy Lowell

(Brookline, 09/02/1874 – 02/05/1925)

“Deus fez-me mulher de negócios, e eu mesma fiz-me poeta”, atribui-se-lhe a citação. Nascida em uma família influente — o irmão, por exemplo, viria a presidir Harvard –, vive em Boston como socialite até 1902, quando decide dedicar-se à poesia. Estreia em volume com A Dome of Many-Coloured Glass (1912); e, nos idos de 1914, adere ao Imagismo, cativada por poemas de H. D. (Hilda Doolittle). Atua como publicitária do movimento, empreendendo campanhas a fim de bem estabelecê-lo em território estadunidense; e a importância que assim adquire, junto a outros fatores, acarreta em Ezra Pound, membro-fundador, abandoná-lo. Amy torna-se então líder do grupo, ferinamente rebatizado de Amygismo por Pound, ficando a cargo da coletânea Some Imagist Poets: An anthology (1915-1917). Como crítica, destacam-se-lhe 1. os livros Tendencies in Modern American Poetry (1917) e John Keats (1925), biografia em dois volumes; e 2. seu total incentivo e suporte a jovens poetas, como Carl Sandburg. Seu volume What’s O’Clock (1925), editado pela secretária Ada Dwyer Russell — com quem mantivera relacionamento estável desde 1920 — e publicado pouco após sua morte, recebeu o Prêmio Pulitzer de poesia.

Victor Queiroz (Campinas, 11/12/1991 – ). Músico de formação e poeta, primeiro por acaso, e depois por gosto. Em matéria de poesia, dedica-se sobretudo à tradução-arte, transcriação, com vistas à poesia moderna de língua inglesa e à poesia francesa clássica. Em seus versos, batalha ainda por encontrar a própria voz, praticando, com frequência, a poesia metalinguística, o poema autocrítico, etc. Estreou oficialmente em julho de 2016, com o poema Ode à beleza através de um trem, publicado na revista Artéria (no. 11).

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