4 poemas de Ursula K. Le Guin traduzidos por Rubens Chinali Canarim

Ursula K. Le Guin (1929-2018) foi uma escritora norte-americana, conhecida principalmente por seu trabalho na literatura fantástica e de ficção científica, publicando romances, ensaios, contos, poesia e literatura infantil. Recebeu honrarias e inúmeros prêmios como o Hugo, o Nebula, o National Book Award, o PEN-Malamud e a National Book Foundation Medal.

 

As mênades
(Do livro Finding My Elegy)

Eu algum lugar eu li
que quando finalmente cambalearam da montanha
a uma cidade estranha, mais do que bêbadas,
roucas, seminuas, com os olhos turvos,
sangue seco sob as unhas quebradas
e escorrido por jovens coxas,
mas ainda zombando e brincando, ainda tentando
dançar, balançando e gritando, mas caindo
em sono profundo pelas tendas dos mercados,
estendidas indefesas, largadas, então
mulheres de meia idade,
donas de casa respeitáveis,
vinham e permaneciam toda a noite na ágora
em silêncio
unidas
quais ovelhas e vacas nos campos da noite,
vigiando, cuidando delas
como as suas mães
cuidavam delas.
E nenhum homem
jamais desafiou
esse decoro feroz.

 

The Maenads
(From Finding My Elegy)

Somewhere I read
that when they finally staggered off the mountain
into some strange town, past drunk,
hoarse, half naked, blear-eyed,
blood dried under broken nails
and across young thighs,
but still jeering and joking, still trying
to dance, lurching and yelling, but falling
dead asleep by the market stalls,
sprawled helpless, flat out, then
middle-aged women,
respectable housewives,
would come and stand nightlong in the agora
silent
together
as ewes and cows in the night fields,
guarding, watching them
as their mothers
watched over them.
And no man
dared
that fierce decorum.

 

*

 

O Poço de Baln
(vencedor do Rhysling Award de melhor poema longo, 1982)

  1. Conde Baln

Eu sou um nobre de vasto patrimônio,
roliço como um carvalho.
Possuo as florestas mais antigas, carvalho e freixo,
e os lagos da montanha
onde os cisnes no outono batem ventos da tempestade
despercebidos por outros caçadores. Eu sou o herdeiro
da casa de setecentos cômodos,
seu alicerce o Monolito de Baln.
Meu coração bate lento e pleno como um grande sino.
Mas no centro da minha casa e de meu coração um buraco
é redondo e mais escuro que meu chapéu de castor
e mais fundo que as minas, mais fundo que as raízes dos rios.
E todas as folhas e diamantes e cães de caça
caem dentro dele, as horas e olhos e palavras,
e quanto mais perto os agarro mais cedo se vão,
e desaparecem. Eu me inclino sobre o poço.
Eu chamo e encaro. Sem estrela, sem agitação.
Seco ele desce, negro e seco.
Sem corda, sem balde. Sem o eco da minha voz
ou de qualquer voz. O vazio
e o longo escuro caminho de pedra abaixo.

Eu deixei minha vela cair dentro do poço.
Eu atirei meu rifle dentro dele.

Nada brilhou ou se agitou ou jamais irá.

De que serve ser um nobre?

 

*

 

The Well of Baln
(Rhysling Award for best long poem, 1982)

  1. Count Baln

I am a nobleman of vast estate,
girthed like an oak tree.
I own the oldest forests, oak and ash,
and the mountain lakes
where swans in autumn beat the wind to storm
unseen by other hunters. I am heir
to the house of seven hundred rooms,
its cornerstone the Standing Stone of Baln.
My heart beats slow and sound as a great bell.
But in the center of my house and heart a hole
is round and blacker than my beaver hat
and deeper than mines, deeper than the roots of rivers.
And all the leaves and diamonds and hounds
fall into it, the hours and eyes and words,
the closer that I clutch them sooner gone,
and disappear. I lean above the well.
I call and gaze. No star, no stir.
Dry it goes down, dark and dry.
No rope, no bucket. No echo of my voice
or any voice. The hollowness
and the long dark stone way down.

I have let my candle fall in into the well.
I have fired my hunting rifle into it.

Nothing shone or stirred or ever will.

What is the use of being a nobleman?

 

*

  1. A esposa de Baln

Por que ele vai lá com sua arma,
seu velho cão, ou o saco
de ouro dos aluguéis das vilas do leste?
Por que ele vai àquele cômodo?
Um porão vazio como cela de prisão,
sem cadeira, sem porta, sem crucifixo, sem janela,
sem nada. Ele entra e tranca a porta.
Eu ouço-o falar alto.

Ele saiu sem o ouro.
Eu nunca mais vi o cachorro.
Ele não falou comigo aquele dia
nem me olhou nos olhos aquele mês.
No escuro da manhã em nossa cama
eu senti-o tremer, mas ele não falou.

Se eu soubesse o que ele temia!
Eu procurei naquele cômodo com mãos e joelhos
rezando. Não há nada lá.
Nada guardado; o chão sem nada;
nada, nada a temer.

 

*

  1. Baln’s Wife

Why does he go there with his gun,
his old dog, or the sack
of rentgold from the eastern villages?
Why does he go into that room?
An empty cellar like a prison cell,
no door, no chair, no crucifix, no window,
bare. He goes in and he shuts the door.
I heard him speak loud.

He came out without the gold.
I never saw the dog again.
He did not speak to me that day
nor look me in the eye that month.
In the dark early morning in our bed
I felt him shaking, but he did not speak.

If I knew what he feared!
I have searched that room on hands and knees
praying. There is nothing there.
Nothing stored; the bare floor;
nothing, nothing to fear.

 

*

  1. A filha de Baln

Eu estive dentro do poço umas cem vezes.
Eu brincava com as crianças de cabelos brancos
em um dos países lá embaixo dentro do poço
onde todas as pedras são vidro.

Se você virar ao lado muito cedo
você chega nos túneis cegos.
Pássaros brancos, touros brancos sem olhos.
Você tem que ir para baixo.

Se você for pra baixo e pra baixo,
a pessoa no barco no lento rio
no lugar escuro disse,
você vai finalmente estar livre.

Ao invés disso, atravessei pelo barco.
Paguei o barqueiro com o ouro de meu pai;
ele riu e o devolveu.

Eu gosto do país do outro lado.

 

*

  1. Baln’s Daughter

I have been down that well a hundred times.
I used to play with children with white hair
in one of the countries down inside the well
where all the rocks are glass.

If you turn to the side too soon
you get in the blind tunnels.
White birds, white bulls without eyes.
You have to go on down..

If you go down and down,
the person in the boat on the slow river
in the dark place said,
you will come clear out at last.

I crossed in the boat instead.
I paid the boatman with my father’s gold;
he laughed and gave it back.

I like the country on the other side.

 

Rubens Chinali Canarim (1988) é poeta e tradutor. Atualmente trabalha em seu primeiro livro, e com a tradução do inglês Alfred Tennyson. Possui publicações no blog Escamandro e na revista (n.t.) Revista Literária em Tradução.

 

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