Três poemas de May Swenson, por Mariana Basílio

May Swenson nasceu em Longa, Utah (Estados Unidos da América) em 28 de maio de 1913. Poeta, tradutora e dramaturga, é considerada uma das autoras mais importantes do século XX por críticos aclamados como Harold Bloom. Faleceu no ano de 1989, aos 76 anos de idade.

Tem publicadas onze obras de poesia, uma obra em prosa e outra em tradução: seleta de Tomas Tranströmer (1972).

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi May Swenson para essa colaboração por acreditar na importância de sua divulgação em nosso país, e claro, pelo impacto que ela tem em mim. De traduções feitas no Brasil, apenas encontrei duas numa breve pesquisa através do Google: tradução do poema “Teleology” (https://blogdocastorp.blogspot.com.br /2017/03/may-swenson-teleologia.html) e do poema “The Truth is Forced” (http://ars poetica-lp.blogspot.com.br/search/label/May%20Swenson).

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura de sua obra, incluindo New & Selected Things Taking Place (1978), The Complete Love Poems (1991), e Poems Old and New (1994).

Em relação à tradução, foi difícil demarcar na língua portuguesa a força de sua sonoridade, seus jogos rompantes entre ritmo e imagens, mas busquei uma equivalência possível dentro dos limites cabíveis para a dicção e o vocabulário da poeta. Defini essas traduções tentando valer-me do verso livre inglês sem comprometer o sentido, espero ter seguido parte dos afluentes de Swenson, adentrando à verve de sua poiesis.

 

Water Picture

In the pond in the park
all things are doubled:
Long buildings hang and
wriggle gently. Chimneys
are bent legs bouncing
on clouds below. A flag
wags like a fishhook
down there in the sky.

The arched stone bridge
is an eye, with underlid
in the water. In its lens
dip crinkled heads with hats
that don’t fall off. Dogs go by,
barking on their backs.
A baby, taken to feed the
ducks, dangles upside-down,
a pink balloon for a buoy.

Treetops deploy a haze of
cherry bloom for roots,
where birds coast belly-up
in the glass bowl of a hill;
from its bottom a bunch
of peanut-munching children
is suspended by their
sneakers, waveringly.

A swan, with twin necks
forming the figure 3,
steers between two dimpled
towers doubled. Fondly
hissing, she kisses herself,
and all the scene is troubled:
water-windows splinter,
tree-limbs tangle, the bridge
folds like a fan.

Em Poems Old and New, 1994.

Retrato da água

No lago do parque
tudo é duplicado:
Longos edifícios pendem e
torcem gentilmente. Chaminés
são pernas curvadas pulando
sobre nuvens. Uma bandeira
abana como um anzol
abaixo lá no céu.

A ponte de pedra em arco
é um olho, com pálpebra
na água. Em sua lente
descem cabeças enrugadas com chapéus
que não caem. Cães passam,
latindo em suas costas.
Um bebê, levado a alimentar os
patos, pende de ponta-cabeça,
um balão rosa como boia.

Copas dispõem uma névoa de
flores de cerejeira como raízes,
onde pássaros passam de barriga para cima
na tigela de vidro da colina;
de seu fundo um bando
de crianças comendo amendoim
é suspenso por seus
tênis, tremulantemente.

Um cisne, com pescoços gêmeos
formando a figura 3,
dirige-se entre duas ondeantes
torres duplicadas. Afetuosamente
assobiando, ela se beija,
e toda cena se atribula:
janelas d’água se estilhaçam,
ramos se emaranham, a ponte
dobra feito um leque.

Four-Word Lines

Your eyes are just
like bees, and I
feel like a flower.
Their brown power makes
a breeze go over
my skin. When your
lashes ride down and
rise like brown bees’
legs, your pronged gaze
makes my eyes gauze.
I wish we were
in some shade and
no swarm of other
eyes to know that
I’m a flower breathing
bare, laid open to
your bees’ warm stare.
I’d let you wade
in me and seize
with your eager brown
bees’ power a sweet
glistening at my core.

Em The Complete Love Poems, 1991. 

 


Versos de Quatro Palavras

Seus olhos são exatamente
como abelhas, e eu
me sinto uma flor.
Seu poder marrom faz
uma brisa afagar a
minha pele. Quando seus
cílios descem e sobem
como patas marrons de
abelha, seu perfurante olhar
faz meus olhos turvarem.
Queria que nós estivéssemos
em alguma sombra sem
nenhum enxame de outros
olhos para saber que
Sou uma flor respirando
nua, aberta para seu
morno olhar de abelha.
Eu deixaria você flutuar
em mim, tomando em
seu ávido poder marrom
de abelha uma doce
cintilância em meu centro.

Question

Body my house
my horse my hound
what will I do
when you are fallen

Where will I sleep
How will I ride
What will I hunt

Where can I go
without my mount
all eager and quick
How will I know
in thicket ahead
is danger or treasure
when Body my good
bright dog is dead

How will it be
to lie in the sky
without roof or door
and wind for an eye

With cloud for shift
how will I hide?

Em New & Selected Things Taking Place, 1978.

 

Pergunta

Corpo minha casa
meu cavalo meu cão de caça
o que farei
quando você cair

Onde irei dormir
Como irei cavalgar
Como irei caçar

Onde irei
sem minha montaria
ávida e ágil
Como irei saber
se o bosque à frente
é perigo ou tesouro
quando Corpo meu bom
cão atento morrer

Como será
deitar no céu
sem teto ou porta
e vento em vez de olhar

Com nuvens se movendo
como irei me esconder?


Mariana Basílio
 (Bauru – SP, 1989) é poeta e tradutora. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa os três próximos livros, Megalômana, Tríptico Vital, e Kairós. Tem poemas e traduções em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, escamandro, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras.

Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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